Padre Cícero e a defesa da biodiversidade

24 jul

Na semana passada escrevi sobre a necessidade de uma revolução na gestão das Unidades de Conservação. Bem como sobre a ameaça das chamadas espécies invasoras. Mas alguns leitores comentaram que faltou clareza no artigo sobre os dois assuntos. Hoje vou tentar elucidar a matéria.

 

Biodiversidade é um conceito que poderia ser traduzido simplesmente por “vida”. É o significado da palavra, que surgiu na década de 80. De lá para cá, ela se disseminou e hoje está incorporada ao vocabulário de todos: cientistas, empresários, ONGs e mídia.

 

A definição da biodiversidade, hoje, em termos legais, é aquela que foi dada pela Convenção da Diversidade Biológica, aprovada na Rio 92. A Constituição brasileira de 88, por sua vez, usa a expressão “diversidade genética” em seu artigo 225. Desde 92, o conhecimento científico sobre biodiversidade aumentou exponencialmente. Alguns relatórios mundiais se transformaram em marcos importantes sobre o assunto. E novas “idéias sínteses” surgiram, a exemplo de serviços ecossistêmicos.

 

Embora contidos nessas “idéias sínteses”, muitos conceitos têm sido praticados pela Humanidade há muitos anos. No Brasil celebrou-se, no domingo passado, uma missa pelos 80 anos da morte do Padre Cícero. Muito tempo antes do surgimento do movimento ambientalista e da consagração da biodiversidade, aquele grande líder religioso elaborou o que hoje chamamos de Decálogo da Ecologia.

 

De acordo com o livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, de Lira Neto, com o crescimento da população de Juazeiro, Padre Cícero promoveu uma distribuição de terras públicas para aqueles que não possuíam maior qualificação. E para evitar a degradação ambiental das mesmas, orientava os lavradores a cuidarem bem de suas terras. Entre as orientações, encontram-se “Não derrubem o mato nem mesmo um só pé de pau”; “Não toquem fogo no roçado nem na caatinga”; “Não cacem mais e deixem os bichos viverem.”; “Não plantem em serra acima nem façam roçado em ladeira muito em pé”; “Deixem o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza.”.

 

Mas além da necessidade de boas práticas de sustentabilidade, uma das estratégias é a criação de Unidades de Conservação. No Brasil, temos uma legislação federal que trata do assunto e define as várias categorias de UCs. E o que o artigo da semana passada assinalou é a necessidade de encontrarmos o melhor modo de promover a gestão das mesmas.

 

Existe ainda a necessidade de se proteger determinadas espécies ameaçadas pela caça e pesca predatória. Neste domingo, o Fantástico fez uma matéria sobre a pesca predatória da Piracatinga, espécie importante de peixe amazônico, hoje exportado como iguaria para a Colômbia. Como iscas são utilizados os botos-cor-de-rosa, e com isso se realiza uma matança cruel em plena “era de consciência ambiental”…

 

Felizmente, neste caso, a Ministra Izabella Teixeira conseguiu uma medida importante proibindo a pesca da Piracatinga, vencendo a resistência oferecida pelo Ministério da Pesca. Uma vitória importante para se preservar a nossa biodiversidade e respeitar os direitos dos animais.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 24 de julho de 2014.

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