Aquecimento global, obesidade e resistência aos antibióticos: temas de campanha eleitoral

3 jul

Existe claramente um desquite entre políticos e a sociedade. Até aí, nada de novo. As manifestações de junho de 2013 demonstraram que esta última quer mudanças. Mas um dos grandes desafios dos políticos diz respeito ao conteúdo da sua agenda: quais são os temas que devem compor a agenda política do Brasil e do mundo de hoje?

 

Caso se adote as pesquisas eleitorais como guia único, certamente estaremos falando apenas da dimensão eleitoral da política. E se não corrigirmos o rumo, estaremos cada vez mais presos nessa armadilha.

 

O desafio reside em se trabalhar a política no que ela possui de mais interessante e desafiador: o seu poder de transformação. Esta tarefa não é simples porque a demanda pelo conteúdo não está explícita. Nos temas ambientais é difícil demonstrar a urgência que deve governar as decisões. O caso das mudanças climáticas é o melhor exemplo dessa dificuldade, embora a ciência demonstre que o custo de não se fazer nada irá impor um grande ônus a todos nós.

 

Na semana passada um grande alerta foi dado pelo ex-secretário do tesouro norte americano Henry Paulson, no artigo “The Coming Climate Crash – Lessons for Climate Change in the 2008 Recession” publicado no The New York Times. E mais do que o artigo, a projeto “Risky Business” divulgou o estudo “Risky Business – The Economic Risks of Climate Change in the United States”, que demonstra os grandes impactos do aquecimento global nos EUA. Abordando aspectos conhecidos da mudança do clima como a elevação do nível do mar nas cidades costeiras, ondas de calor e até mesmo uma previsão de aumento da violência nas cidades norte americanas.

 

O surpreendente é que Henry Paulson é um dos expoentes do partido republicano no qual se encontra a grande resistência do Congresso americano à adoção de políticas de enfrentamento do assunto.

 

No Brasil o aquecimento global não tem sido considerado até aqui um tema relevante na agenda política do país. Ainda que alguns possam dizer que temos uma legislação sobre o assunto com metas voluntárias a nível federal, assim como iniciativas similares em alguns estados e municípios.

 

Mas a omissão não se restringe ao aquecimento global. Dois outros temas merecem estar no centro das nossas preocupações políticas.

 

Um deles é o crescimento alarmante da obesidade no país. O que exige uma política pública agressiva que vai ter que discutir desde hábitos alimentares, publicidade infantil e até mesmo a quantidade de açúcar e sódio nos alimentos industrializados. E para aqueles que acreditam que o assunto se insere única e exclusivamente na discricionariedade das pessoas sobre o que comer, vale lembrar que em última instância a conta ficará para o Sistema Único de Saúde.

 

Outro tema emergente diz respeito à resistência oferecida por muitas doenças aos antibióticos hoje existentes. Infelizmente o uso exagerado na agricultura e para fins medicinais criou uma resistência, exigindo políticas firmes para lidar com a questão. No Brasil, já existe registro de super bactérias resistentes aos antibióticos tradicionais, segundo matéria publicada no O Globo, “Prova Global de Resistência” (30/6/14), sem que exista uma estratégia clara para enfrentar o problema.

 

Enfim, a nossa agenda política deve se modernizar de modo a permitir que temas relevantes, ainda que sem expressão nas pesquisas eleitorais, possam ser devidamente contemplados. É o caso do aquecimento global, da obesidade e da resistência aos antibióticos.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 3 de julho de 2014.

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