Greves de ônibus e o caos urbano

23 mai

São Paulo assistiu nos últimos dias um caos no transporte público da cidade.

 

Uma dissidência sindical levou motoristas e cobradores a realizarem piquetes que impediram a circulação de ônibus na cidade. Além disso, parte desses últimos foi estacionada de modo a evitar que motoristas pudessem furar a greve. Como conseqüência, a população “pagou o pato”, até mesmo pelo fato de que o movimento grevista foi feito sem nenhuma notificação prévia às autoridades e ao povo. Pessoas foram ao trabalho sem saber que não poderiam voltar para casa mais tarde.

 

Em que pese a legitimidade da greve como recurso legal dos trabalhadores, não há como não se questionar a sua utilização quando a mesma impõe sofrimento à população. Especialmente àquela que depende do ônibus para se deslocar na cidade.

 

Esta última greve me fez lembrar das conhecidas “operações tartaruga” nos aeroportos brasileiros, que impõem aos cidadãos que dependem dos serviços públicos o ônus dessas medidas. Se de um lado tais iniciativas dão visibilidade às reivindicações e criam ambiente propício às negociações, por outro trazem muitas vezes o caos que assistimos em São Paulo. Há poucos dias, a Política Militar da Bahia se utilizou desse mesmo recurso e, por conseqüência, os homicídios explodiram.

 

Com a chegada da Copa do Mundo certamente teremos muitas greves, além de manifestações nas ruas em nome de diversas causas. O direito de sua realização é incontestável. Mas o que está em debate é como separar o joio do trigo. Quer dizer reconhecer esse direito e também não penalizar, no caso de serviços públicos essenciais, a população. No que tange às manifestações, reprimir os atos de vandalismo.

 

Voltando à greve de ônibus paulista, o que mais surpreendeu foi o fato de que a mesma foi liderada, até onde se sabe, por uma dissidência sindical, uma vez que a assembléia da categoria teria aprovado um acordo no dia anterior.

 

A única estratégia a ser seguida é a abertura de um diálogo por parte das autoridades com todos os atores envolvidos, com o objetivo de se estabelecer algum denominador comum. Este consistiria em se fixar algumas regras que protegessem os direitos dos cidadãos afetados potencialmente pelas greves. Certamente alguns leitores poderão dizer que já existe legislação a respeito do assunto. É verdade. Mas os episódios recentes demonstraram que é necessário um protagonismo antecipatório das autoridades.

 

É interessante se assinalar que as manifestações de junho do ano passado foram motivadas exatamente contra o aumento das tarifas de ônibus. Desde então, pouco se avançou na discussão do transporte público urbano em São Paulo e no Brasil. A começar pela abertura da planilha de custos, que permitiria que soubéssemos exatamente como trabalhar no sentido de garantir uma oferta de transporte eficiente e barato. Se o maior custo é o combustível, como reduzir a taxação do mesmo? Com a transparência dos dados poderíamos enfrentar com mais qualidade essa discussão. Aliás, é bom lembrar que a destruição de ônibus pelos vândalos vai trazer custos adicionais ao usuário dos mesmos.

Enfim, vamos aprofundar o debate e encontrar nas regras democráticas boas soluções.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 23 de maio de 2014.

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