A violência nossa de cada dia

8 mai

Cada um de nós deve se perguntar a cada dia sobre as causas do aumento da criminalidade no Brasil. Dou meu exemplo: recentemente tive a minha casa invadida, sendo importante se assinalar que não foi a primeira vez. Em meu círculo familiar, praticamente todas as pessoas sofreram furtos de celular e até mesmo fraude pela apropriação ilegal de CPF. No noticiário desses últimos dias, a morte de um torcedor pelo arremesso de uma privada demonstrou, mais uma vez, a crise que vivemos. E o que dizer sobre o linchamento da dona de casa e mãe de duas filhas no Guarujá?

O que está acontecendo?

Há alguns anos se atribuía a violência no Brasil ao desemprego. Ou seja, as pessoas recorriam à delinqüência para sobreviver, ainda que esta hipótese fosse desmentida pelas estatísticas de outros países: a depressão de 1929 não gerou uma epidemia de violência. E no Brasil de hoje os altos índices de emprego desmentem a associação entre criminalidade e mau desempenho da economia. Em outras palavras, deveríamos estar vivendo um período de baixa criminalidade e pouca violência.

Certamente este será um tema ainda mais presente na agenda brasileira: algumas delegações estrangeiras já estão preocupadas com a segurança na Copa do Mundo. Isso me faz lembrar da Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, marcada pela presença de tanques do exército na Rocinha. Ainda que decorridas duas décadas desde então, nada indica que a cena não irá se repetir nas cidades sedes.

Com o aumento da criminalidade e da violência, as pessoas se defendem como podem. Blindam seus carros, aumentam a segurança privada nos condomínios, instalam cercas elétricas e câmeras de vigilância, reinventam seus hábitos. Mas nem sempre conseguimos avaliar com precisão o custo desta violência em nossas vidas. Desde a dor sofrida pelo ato de violência em si, até mesmo os sentimentos de vulnerabilidade, impotência e insegurança a que estamos expostos.

Existe um enorme repertório de medidas a serem tomadas para combater essa realidade. Fortalecimento das instituições policiais de modo a resgatar a credibilidade perdida em todos esses anos, começando pela transparência absoluta das informações.

O exemplo paulista é representativo: apenas uma porcentagem ridícula de 8% dos registros policiais enseja a identificação da autoria dos delitos e, com isso, o correspondente processo penal. No Brasil, está porcentagem cai para 3%. Em outras palavras, com a garantia de impunidade, o crime compensa.

Vale assinalar que os registros policiais não refletem a realidade pelo fato de que a maior parte da população não acredita que o registro das ocorrências trará algum tipo de conseqüência

Mas, o que falta mesmo no país é se conhecer quais são as forças econômicas que movimentam a “economia do mal” em toda a “cadeia produtiva”. No caso das drogas, a discussão no Brasil já está em curso, graças, em grande parte, ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Contudo. Contudo, falta muita “inteligência” para se conhecer o funcionamento do mercado de ilícitos, valendo a pena ler o ainda atual livro “Ilícito”, de Moisés Naím.

Ano eleitoral oferece a oportunidade de conhecermos como pensam os candidatos sobre essas questões, fugindo dos clichês e dos chavões eleitorais.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 8 de maio de 2014.

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