Genocídio de Ruanda vinte anos depois

17 abr

Estamos assistindo, atônitos, o massacre na Síria. E o que é mais importante, a incontestável incapacidade das instituições internacionais atuarem de modo a impedi-lo. Como disse Clóvis Rossi na Folha de São Paulo, “O pior é que a ONU aprovou um instrumento, em 2005, apto para evitar tragédias como a da Síria. Chama-se “Responsabilidade de Proteger” e estabelece que, se um Estado não garante adequadamente a segurança de seus cidadãos, cabe à comunidade internacional assumir a tarefa, inclusive com o uso da força”.

 

Este ano se completam vinte anos do genocídio de Ruanda: 800 mil pessoas massacradas a golpes de facão e tiros de fuzil. As vítimas foram os Tutsis, assassinados pelos Hutus, em uma disputa de etnias inimigas há muitos anos. Este genocídio é considerado o pior desde o Holocausto, praticado pelos nazistas.

 

Desde então, assistimos o pedido de desculpas do ex-presidente Bill Clinton, que reconheceu a omissão dos Estados Unidos à época. A França, por sua vez, teve um papel pouco digno em todo o episódio pela sua proximidade com o governo Hutu de então e, até hoje, não abriu seus arquivos para que se possa saber qual foi a sua participação neste genocídio. E o mais importante em toda essa questão é que os responsáveis não foram julgados.

 

O Secretário das Nações Unidas, Ban Ki-moon, assinala a brutalidade do episódio em Ruanda. Em suas palavras: “10 mil mortos por dia, dia após dia, durante três meses, com transmissões de ódio pelo rádio, incitando ruandenses a matar ruandenses”.

 

Certamente precisamos refletir sobre esse genocídio ocorrido há apenas vinte anos. Infelizmente, a Humanidade ainda não foi capaz de encontrar mecanismos eficazes que impeçam a repetição de situações como essa. Muito pelo contrário. A ONU enfrenta uma grande crise moral pela incapacidade de obter consenso internacional para modificar o desenho de sua arquitetura, que reflete exatamente o pós guerra.

 

No caso dos genocídios recentes, sempre é bom se assinalar que ações mais efetivas dependem do Conselho de Segurança, que é o retrato da distribuição de poder do pós guerra. Na Síria, medidas mais efetivas são vetadas pela Rússia, com o objetivo de não perder seu poder de influência naquela região conturbada.

 

Mas não se trata apenas de se repensar a ONU em situações tão dramáticas como a da Síria e de Ruanda. No que tange a um dos maiores desafios da Humanidade, o do aquecimento global, a cada dia se constata a necessidade de uma liderança mais efetiva por parte da comunidade internacional.

 

A comunidade científica mundial, representada pelo IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, constata a necessidade de se agir o quanto antes para se impedir o pior. Estamos perdendo a oportunidade de estabilizar a concentração de gases efeito estufa (GEE) na atmosfera e, com isso, impedir o caos climático.

 

Será que conseguiremos, enquanto geração, avançar nesse desafio de construir mecanismos e instituições que permitam que a Humanidade lide com tragédias como as da Síria e Ruanda? E no caso da mudança do clima, com menos irresponsabilidade?

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 17 de abril de 2014.

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