O Itamaraty diante dos novos tempos

27 mar

Na semana passada participei de uma reunião promovida pelo Ministério das Relações Exteriores,“Diálogos sobre Política Externa: um debate entre governo e sociedade sobre o papel do Brasil no mundo”. Esta se insere em uma série de diálogos, visando capturar visões da sociedade civil sobre vários temas relevantes.

 

No tema do qual participei, “Mudança do clima e desenvolvimento sustentável”, assinalei a importância do ano de 2015, quando a comunidade internacional pretende tratar de temas cruciais para o nosso futuro. Em Paris, na Conferência das Partes 21 (COP 21), se pretende fechar um novo tratado internacional que defina metas de redução de gases efeito estufa (GEE), contemplando todos os países. Reside nesse item complexo a grande dificuldade de se estabelecer o acordo, uma vez que isso representa, entre outras coisas, a exigência por uma matriz energética com menor participação de combustível fóssil.

 

É bom lembrar que de Copenhague (COP 15 – 2009) para cá, houve um inegável esmorecimento das discussões sobre mudança do clima, sendo que dois países exercem um papel crítico nessas negociações: EUA e China. São as maiores potências econômicas do mundo e os maiores emissores de GEE. No caso dos EUA, há forte resistência do congresso americano em aceitar um acordo internacional pelo entendimento de que este afeta a soberania daquele país. A China, por sua vez, depende do combustível fóssil para manter o seu padrão de crescimento econômico, ainda que esteja investindo pesadamente em fontes renováveis. Mais recentemente, colocou o combate à poluição como um dos seus grandes desafios.

 

O Brasil, em Copenhague, adotou, por força do presidente Lula, uma posição importante ao assumir compromissos voluntários. Desde então, o Itamaraty, infelizmente, teve uma recaída e voltou às antigas posturas de resistência à idéia de compromissos por parte de “países em desenvolvimento”.

 

Certamente se espera do Brasil uma inovação, liderando avanços que rompam com o impasse na negociação. Em outras palavras, o que se deseja é o exercício de uma liderança firme e progressista, que sinalize que estamos aptos a ocupar um espaço de um país detentor de grandes ativos estratégicos: uma sociedade civil organizada e pró-ativa; lideranças empresariais cosmopolitas e comprometidas com a sustentabilidade; uma mega-biodiversidade e a maior reserva de água doce do planeta. Além disso, uma democracia consolidada e credenciais importantes no que tange à inclusão social.

 

2015 também será o ano em que os “Objetivos do Milênio” darão lugar aos “Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”. Ou seja, mais uma vez o Brasil se encontrará na marca do pênalti. Podemos marcar o gol ou desperdiçá-lo.

 

Precisamos, isso sim, de ousadia nesses temas. Compreender que a ciência aponta, cada vez mais, que é hora de agir e que novos arranjos institucionais nas Nações Unidas precisam ser realizados para fazer frente ao recurso mais escasso: o tempo.

 

Para tanto, o nosso Itamaraty precisa de desapego às antigas visões geopolíticas. Ninguém melhor para promover essas mudanças do que o atual Ministro de Relações Exteriores, o Embaixador Luiz Alberto Figueiredo. Ninguém no mundo conhece melhor as entranhas das negociações climáticas e de desenvolvimento sustentável.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 27 de março de 2014.

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