Economia circular e a greve dos garis no Rio de Janeiro

13 mar

O Rio de Janeiro, foi tomado pelo lixo em pleno período de carnaval, em função da greve dos garis. Com isso, de certo modo os brasileiros e os cariocas, em particular, viram o quanto de lixo cada um de nós produz diariamente, o que normalmente passa desapercebido. No momento em que colocamos o nosso lixo de cada dia nos sacos plásticos e o depositamos nas ruas, o problema desaparece. Pouco importa a destinação final: aterro sanitário, lixão, incinerador.

 

O Brasil possui uma legislação importante denominada Política Nacional de Resíduos Sólidos. Esta representa um avanço importante pelo fato de que define responsabilidades do poder público, contemplando também o importante papel do setor empresarial nesta matéria. Torna-se relevante assinalar que até recentemente a responsabilidade do fabricante e/ou produtor se esgotava na entrega da mercadoria no varejo. A partir daí, uma vez consumido o bem ou o serviço, a responsabilidade passava a ser unicamente do poder público, notadamente o município responsável pela coleta e destinação final.

 

Hoje, a legislação procura implantar a “logística reversa” mediante a qual, após o consumo, há que se retornar ao ciclo de produção o que for possível em termos de matéria prima ou mesmo partes de produtos que possam ser reaproveitados. É um processo longo que exige inovação e, mais do que isso, a criação de condições que assegurem a logística reversa. Entretanto, a sua implementação encontra-se comprometida pela falta de um repertório de instrumentos econômicos que a tornem competitiva.

 

Em outras palavras, no Brasil a matéria prima virgem é menos tributada do que o produto reciclado, demonstrando que ainda impera a idéia de que políticas de “comando e controle” são suficientes para equacionar os desafios da sustentabilidade.

Mas é importante levar em consideração que o problema do lixo depende da consideração de que o brasileiro se relaciona muito mal com a coisa pública. O espaço urbano, para a maioria da população, ainda é visto como algo que não lhe pertence, sendo, portanto, tratado como uma grande lixeira.

O fenômeno se repete nos banheiros públicos: não soltar a descarga do vaso sanitário é reflexo dessa mesma postura. Ainda que o brasileiro seja particularmente cuidadoso na sua casa. E não se trata, diga-se de passagem, de uma questão de nível educacional porque os banheiros das universidades brasileiras são, em sua maioria, imundos.

 

No caso do Rio de Janeiro, creio que a greve serviu para mostrar como a sociedade de hoje gera lixo, exigindo uma radical mudança do padrão de produção e consumo. Além de estratégias bem planejadas que nos permitam consumir bens e serviços com menor potencial de descarte, no que dependemos de boas políticas, que pactuem compromissos entre o poder público e o setor empresarial, no que hoje se denomina de economia circular.

Ricardo Abramovay, um dos grandes pensadores brasileiros neste assunto, tem assinalado que a idéia da economia circular enseja uma nova visão de como integrar as várias etapas do ciclo de produção, sendo um dos pilares estratégicos da economia verde e do desenvolvimento sustentável. Trazendo muitas oportunidades de novos negócios para o setor empresarial comprometido com os desafios do século XXI.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 13 de março de 2014.

 

Comentários encerrados