Aquecimento global: há muito para entender

21 mar

Poucos assuntos apresentam a complexidade do tema da mudança do clima. Especialmente se levarmos em conta o fato de que, no mundo, pouca ação está sendo realizada para enfrentar o aquecimento global, sendo importante se assinalar que isto se dá na esfera de negociação internacional, bem como em relação aos governos nacionais e subnacionais.

 

Recentemente, a comunidade científica revelou uma diminuição no aumento da temperatura no período de 1998 a 2013, ainda que as emissões de gases efeito estufa (GEE) continuem crescendo.

 

Essa constatação aumenta a dificuldade de se debater o tema com a sociedade, sendo um elemento complicador no que tange ao convencimento de que devemos agir com firmeza e senso de responsabilidade. E, mais do que nunca, reconhecer que a ação humana tem uma contribuição incontestável no aquecimento global e que este continua em curso. Ou seja, não foi interrompido. como afirmam maliciosamente alguns, de modo a justificar a utilização de combustível fóssil, desmatamento, enfim, o que, no jargão climático, se diz “business as usual”.

 

As vésperas da divulgação de mais um relatório do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o que se espera é que a comunidade científica aprimore a sua capacidade comunicação. Como disse Bob Ward, diretor do Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment, em entrevista para a prestigiada revista Nature Climate Change deste mês, a tendência do aquecimento, a longo prazo, é irreversível, ainda que tenha havido uma diminuição do mesmo nos últimos anos. Segundo ele, o que não é aceitável é se utilizar dessa diminuição para se deixar de pressionar os políticos para fazerem mais sobre o assunto.

 

Muitos argumentos podem ser elencados para demonstrar a gravidade do aquecimento global, a exemplo de um estudo que demonstra que no período de 1998 a 2012 o número de dias quentes e muito quentes aumentou, bem como os períodos quentes. Além disso, é necessário lembrar que o aquecimento no Ártico tem sido bem maior do que no resto do mundo e que ele continua alarmante.

 

O importante em tudo isso é reconhecer que ainda estamos longe de compreender o clima do planeta. Pesam sobre essa compreensão uma série de incertezas que deverão ser entendidas nos próximos anos.

 

Para se ter uma idéia de como surgem temas novos, basta lembrar que a constatação do fenômeno da acidificação dos oceanos surgiu há pouquíssimos anos e que ainda não se tem consenso sobre o papel que os mesmos exercem como sumidouro das emissões de GEE.

 

Outro tema que está atraindo a atenção da comunidade científica diz respeito ao ciclo do carbono florestal. Até a divulgação do relatório do IPCC de 2007, pode-se dizer que a contribuição da mudança de uso do solo/desmatamento foi negligenciada. Hoje, há mais certeza sobre a necessidade de se cuidar bem das florestas e se compreender como melhor manejá-las, do ponto de vista científico.

 

O Brasil, nesta temática, tem muito a contribuir em todos os sentidos. Quer pela produção de ciência a esse respeito, quer pela necessidade de continuar reduzindo as altas taxas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

 

Diminuir as incertezas científicas sobre o aquecimento global e enfrentá-lo com determinação continuam sendo os desafios da Humanidade nos próximos anos.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 20 de março de 2014.

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