Ufa, que calor!

6 fev

Dois fatos fazem parte da agenda dos brasileiros, especialmente dos paulistas e paulistanos: o calor e a falta d’água. O calor em São Paulo está insuportável e hoje faz parte de toda e qualquer conversa.

Noites mal dormidas, desânimo para o trabalho, compra de ventiladores e ar condicionado, enfim, estamos vivendo uma situação relativamente nova pelo fato de que há muitas décadas não se vivia sensação térmica nessa escala. E aí, existem vários fatores que vão desde os milhares de quilômetros de asfalto sem áreas verdes, gerando as denominadas ilhas de calor, passando pelo aquecimento global.

Além do calor extraordinário, os paulistas estão se preparando para o racionamento de água, dado o fato de que os nossos reservatórios se encontram no limite de segurança. Certamente isto se deve a esse período de verão sem chuva, que também se insere na discussão da ação antrópica sobre o clima do planeta e sobre as alterações ambientais, tais como desmatamentos e assoreamentos, associados à rápida expansão urbana ocorrida nas últimas décadas.

Como o calor e a falta d´água afetam dramaticamente as nossas vidas, devemos aproveitar a oportunidade que esta situação nos dá para discutir com as pessoas a relação que temos com o meio ambiente/natureza.

Normalmente, abstraímos das nossas vidas o fato de que a água da torneira é transportada para as nossas casas de um manancial ou de um rio. E que estes, estão inseridos em uma engenharia complexa da natureza, dependendo de fenômenos como a fotossíntese e evapotranspiração das plantas, da vegetação e das florestas, que ajudam a formar as nuvens. A ciência, por sua vez, ainda busca decifrar o funcionamento das nuvens, desde a sua formação, e a relação que as mesmas possuem com a composição bioquímica da atmosfera.

Certamente, o racionamento de água e mesmo o calor não serão suficientes para trazer para cada um de nós a consciência de nossa dependência da natureza. Mas, não podemos desperdiçar a possibilidade de aprofundarmos alguns debates: como criar e implementar políticas públicas que impeçam o aquecimento global? Como combater o desperdício da água e garantirmos uma melhor gestão de água doce em nossas cidades? Como pensar uma arquitetura mais inteligente que dispense o ar condicionado e melhore a ventilação de nossas casas, fábricas e escritórios?

Em relação às soluções mais imediatas como a compra de ventiladores e ar condicionado, temos que lembrar que o seu uso significa um extraordinário aumento da demanda de energia, que no caso brasileiro depende dos reservatórios de nossas hidrelétricas, nos dias de hoje já reduzidos pela falta de chuva.

Em outras palavras, a lição torna-se muito evidente: precisamos repensar a nossa relação com o meio ambiente/natureza e ter em mente que quanto mais preparados estivermos para compreendê-la, maior a garantia de bem estar coletivo a médio prazo.

Calor insuportável, secas prolongadas, chuvas torrenciais são manifestações da nossa incapacidade de lidar com o meio ambiente. E se continuarmos a adiar a mudança de mentalidade que a crise ambiental exige, enfrentaremos a cada dia situações mais dramáticas do que a que estamos vivendo hoje.

Artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 6 de fevereiro de 2014.

Comentários encerrados