Fernando Haddad: um político moderno?

17 out

Na semana passada, o prefeito Fernando Haddad suspendeu o programa de inspeção e manutenção veicular em curso na cidade de São Paulo, alegando irregularidades no contrato havido com a concessionária, a Controlar. Mais do que isso, cumprindo uma promessa de campanha, a de eliminar o incômodo imposto aos proprietários de submeterem seus veículos à inspeção.

São Paulo também abriu mão de um parque linear – o Parque Municipal da Brasilândia, com uma área verde de mais de 310 mil m2, criado na gestão Kassab/Eduardo Jorge: a área foi invadida e hoje a prefeitura está implantando um projeto de habitação popular. Nas palavras do vereador Gilberto Natalini (PV/SP), um dos responsáveis pela Política Municipal de Mudança do Clima, “a atual gestão abre mão de um equipamento fundamental para a qualidade de vida dos habitantes da região e importante para prevenir enchentes”.

O prefeito Fernando Haddad surgiu como uma “opção inovadora” na política brasileira, representando uma nova geração de políticos que viria para substituir os nomes conhecidos. Entretanto, o que estamos assistindo é um político que inicia sua gestão destruindo conquistas importantes de uma cidadania contemporânea, curvando-se a um populismo eleitoral de fôlego curto.

No que tange à inspeção e manutenção, ao ser perguntado na Rádio CBN sobre os impactos de sua decisão à saúde dos paulistanos, respondeu que discordava da metodologia dos estudos realizados pelo professor Paulo Saldiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que dão conta da gravidade da poluição do ar. Esses estudos são portadores de credibilidade internacional, razão pela qual são objeto de publicação recente na revistas Nature Reviews Cancer e na Lancet Oncology. Apenas como esclarecimento aos leitores, essas importantes revistas possuem critérios rígidos do ponto de vista científico para a publicação de artigos.

Há anos defendo a inspeção e manutenção no Brasil pelo fato de que é um instrumento essencial de mitigação de gases efeito estufa (GEE) e controle da qualidade do ar nos grandes centros urbanos, especialmente com o aumento vertiginoso da frota de automóveis em nossas cidades. Medidas como essa são impopulares porque trazem incômodos aos cidadãos, sendo que os benefícios são sempre difusos. Afinal, aumento de asma, bronquite e óbitos não são geralmente atribuídos à poluição.

O prefeito Fernando Haddad acerta ao priorizar o transporte público. Mas erra ao comprometer a qualidade do ar que todos respiram. Vale assinalar, neste caso, que o cidadão é deixado sem escolha porque ao contrário do transporte – motorizado ou não motorizado, público ou privado – não pode optar por um ar mais limpo.

É oportuno lembrar, no caso do parque na Vila Brasilândia, que o cenário previsto pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – do aquecimento global na região metropolitana de São Paulo é severo: chuvas intensas no verão com enchentes e inundações; aumento da temperatura média em algumas décadas; e eventuais ondas de calor. Com isso, a criação de parques é um modo eficiente de se adaptar a cidade àquelas condições adversas, favorecendo um número muito maior de pessoas do que aquele contemplado pelo projeto habitacional em implantação naquela área.

Enfim, esperava mais do nosso prefeito: uma gestão capaz de contemplar uma cidadania contemporânea.

Artigo publicado no Jornal Brasil Econômico em: 17/10/2013

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